sexta-feira, outubro 07, 2005

Afinal há coincidências

Margarida Rebelo Pinto sempre se queixou da incompreensão e da indiferença do meio literário. Com alguma razão, reconheça-se. Afinal, é a escritora mais lida em Portugal, vende dezenas, centenas de milhares de livros, e a crítica literária, ocupada no seu próprio tédio, nunca tem tempo para a ler. Ignora-a. Não faz o seu papel, não emite opiniões fundamentadas e especializadas. É inaceitável, por exemplo, que os portugueses, pelo menos aqueles que a lêem, se vejam privados das solenes meditações de um António Guerreiro ou de um Manuel de Freitas, isto para referir apenas dois nomes, dos mais destacados, que representam as últimas gerações da crítica literária jornalística. Ora isto é de uma injustiça feroz. Perante tal situação, perante a crónica incapacidade dos críticos para lidar com obras de inusitado êxito comercial, decidi mergulhar, de cabeça, na obra completa de Margarida Rebelo Pinto, até agora oito livros: cinco romances – Sei Lá (SL), Não Há Coincidências (NHC), Alma de Pássaro (AP), I’m in Love with a Pop Star (LPS), Pessoas Como Nós (PCN) – e três colectâneas de crónicas e minificções publicadas em jornais e revistas – As crónicas da Margarida (CM), Artista de Circo (AC) e Nazarenas & Matrioskas (NM). Todos eles foram lidos, relidos, minuciosamente sublinhados, rabiscados e anotados nas margens, as páginas dobradas, amarrotadas e vincadas. Regressado à superfície, posso afirmar, com propriedade, que Margarida Rebelo Pinto despertou o masoquista que há em mim. Que lê-la, do primeiro ao último livro, foi um tormento digno da Bíblia.
O resultado está em Couves & Alforrecas e é demolidor. Ora vejam este pequeno resumo:
"(...)Um aviso, desde logo: o texto que se segue é embaraço para a escritora e penoso para os leitores em geral. Margarida Rebelo Pinto repete-se imoderadamente, copia frases de uns para outros livros, utiliza por vezes citações de escritores sem lhes atribuir a origem, tem deslizes de ortografia e comete erros gramaticais, as personagens, as situações, os temas e a estrutura narrativa são sempre os mesmos, as vidas que relata são homogéneas e monótonas, há incongruências catastróficas no vocabulário dos narradores, retirando-lhes toda a credibilidade, as representações dos homens e das mulheres são padronizadas, estereotipadas e simplistas, a escrita toca as raias do mau gosto e do anedótico, o estilo é uniforme e preguiçoso. Tudo considerado, livros deploráveis, falhados e vulgares. Não é fácil afirmar estas coisas, no início senti-me inclusivamente desapontado. É que o fenómeno Margarida Rebelo Pinto era-me simpático. Quando a comecei a ler até estava predisposto a gostar dela.(...)"

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